terça-feira, 17 de janeiro de 2012

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Nós devemos pertencer a algum lugar

"Porque tudo deve pertencer a algum lugar
Estúdios na Califórnia, televisões na Time Square
Tudo deve pertencer a algum lugar
Eu sei isso agora, e é por isso que eu estou ficando aqui"

- Bright Eyes

_Sabia que só de olhar a forma de uma pessoa fumando eu sei dizer se ela fuma no dia-a-dia ou é só um desses fumantes de fim de semana?
Ele disse isso tragando um Lucky Strike vermelho.
_É sério?
_Uhum, observa depois. A forma de segurar o cigarro, de tragar e principalmente a forma de acender. Só de acender já dá pra saber se o cara fuma de verdade.
_ Porra Léo, nunca parei pra olhar isso.
_Poisé, sou paranóico com essas coisas. E o nosso amigo aqui ó – apontado disfarçadamente pra um colega nosso na cadeira ao lado – é um desses que só fumam de vez em quando.
_Porra Léo, e eu? Como eu fumo?
_ Ah Lola, tu fuma o dia e o tempo todo porra.
Nós rimos. Coisas inúteis que costumávamos conversar desde aquela época que você morava aqui, não lá, mas aqui, e era tão fácil te encontrar e eu não precisava ficar esperando o ano inteiro pra tomar um porre contigo e nem me preocupar se ainda iria voltar a te ver toda vez que você vai embora. E agora você está aqui de novo depois de uma porrada de tempo que eu não te via, tu passa lá em casa e mesmo morta de cansada eu meto um short nas pernas e saio contigo. A gente fica lembrando essas coisas que eu queria que voltassem. E as pessoas que morreram, eu digo morreram porque elas mudaram tanto que até parece que mataram quem elas eram antes, ou pior, chega aparecer que o “antes” delas nunca existiu. A gente continua quase os mesmos. Pensado bem, agora, eu aqui, olhando pra você com as pernas no seu colo estou me tocando sobre o quanto você cresceu-desenvolveu-evoluiu, assim mesmo com hífen, tipo uma coisa continua e participante que a vírgula não deve separar. Todo sério e centrado soltando um sorriso maduro de canto de boca quando vai conversar comigo, eu continuo toda molecona, feliz por você estar aqui por que como eu disse, nunca dá pra saber se você vai voltar e apesar de feliz eu também fico angustiada quando estamos juntos.
Eu leio demais, eu bebo demais cara, e é provavelmente por isso que eu fodo a minha cabeça. Com todos esses Kerouacs e esses Bukowskis que já morreram e continuam velhos e cansados em seus livros, tentando extrair alguma vida do caos, alguma abundância de seus vazios até se cansarem mais e dizerem ‘’Tome muitos porres, foda desconhecidos, e acabe sozinho chorando no quarto de hotel mais barato e soturno de lugar nenhum’’. E tem os garotos também. Alguns muito interessantes que nem se quer olham pra mim porque eu sou muito estranha, não feia de tudo, mas muito esquisita com uma confusão que acaba estampada na minha cara e que eu não consigo disfarçar porque estou ocupada demais tentando sustentar um coração muito pesado. E enquanto você fica ai, analisando seus fumantes botecos a fora, eu te observo e fico tentando desviar aqueles pensamentos típicos que me brotam a cabeça quando enfrento despedidas: e seu eu morrer amanhã? E se você morrer amanhã? E se eu engravidar sem querer de um cara por ai? E se você for obrigado a se casar porque vai ter um filho de uma guria que tu conheceu num show? Qual catástrofe seria grande o bastante pra não te deixar voltar nunca mais pra mim?
_Leo?
_Hãn?
_Você já pensou como será a vida daqui uns 20, 30 anos? Se a gente vai continuar amigos ou sei lá, tu vai lecionar sociologia em Sampa e um belo dia a gente se esbarra na Augusta no meio de uma multidão sinistra e eu vou olhar pra você sem nem saber o que pensar...
_É cara, foda né? Já pensei nisso.
_ Seja um professor gato, porque sociologia é uma matéria muito chata. Se você for feio as garotas vão querer cometer suicídio na sua aula. Pelo menos meu professor de sociologia na facu é gato hahaha.
_Pódeixa Lola, pódeixa. Hahaha
Porra, eu sou sentimental demais, talvez por ter nascido no dia 24, talvez por ser libriana, talvez por ser mulher... Tu já é diferente, tu se contenta só com a presença enquanto eu preciso de contato. Por vezes quero te abraçar, te dizer o quanto eu quero que você fique, mas me seguro várias vezes pra não parecer efusiva demais, chata demais, ou sei lá, pra não parecer que to te dando mole. Mas eu só quero te abraçar porque sinceramente, não tenho noção do que o destino guarda pra ninguém. A gente pode nunca mais se ver, ou simplesmente se casar daqui a 10 anos. A gente pode morrer ou se esbarrar na Augusta. Essa história de destino me bola cara. Quero tanto te abraçar porque eu queria que você ficasse aqui. Eu me apego a você toda vez que você vem, de novo e de novo e de novo. Você vai ser o sociólogo mais gato de toda a história da sociologia com seu sorriso de eu-estou-avaliando-todo-mundo-calado. Eu adoro você meu bem. E se a gente se esbarrar na augusta, que seja porque eu tropecei quando andava AO SEU LADO. Sim eu gosto muito de você. Volta pra me contar da faculdade e pra gente beber e falar dos outros fumantes ou curtir um Skirllex na magia existencial da substância. Vai com Deus, e volta, mas volta mesmo.

To my real future sociologist guy