domingo, 26 de fevereiro de 2012

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Quando Hemingway atirou em minha cabeça

Bem, são três horas. Lá fora a chuva pesada não me deixa sair, mas eu nem sei se na verdade eu quero. Aqui dentro é frio, mas pelo menos seguro. Em cima do criado mudo tem um livro do Bukowski, na parte de traz uma resenha com letras vermelhas anuncia ‘O Beat pós-moderno’. Balela. Odeio essas resenhas que querem te ensinar a pensar, fazer todo mundo acreditar sem conhecer. Fotos em livros de culinária, casais sorridentes pela rua. Eu me questiono sobre as idéias prontas que nós apenas egolimos sem água pra ajudar a descer. Chora que passa, cigarro mata, a vida é bela, o amor é lindo... E ninguém nunca saiu vivo pra comprovar. Faço tantas perguntas a mim mesma que acabo causando pane em minha própria mente enquanto chafurdo no pânico paradoxal do dia-a-dia. Eu me pergunto se vou ser tão má sucedida no amor quanto minha mãe. Se eu nunca vou conseguir sorrir ao lado de alguém sem que minhas paranóias destruam tudo o que construo, sem enlouquecer qualquer um que se aproxime, sem criar laços imaginários baseados no amor unilateral de Platão. Me pergunto se vou ficar louca trancada num sobrado cheio de gatos e livros. Meu armário abarrotado de roupas, meu coração vazio de sentimento. E com esses pensamentos eu inauguro minha próxima noite mal dormida, minha mente que não me deixa descansar, meus olhos esbugalhados, meu corpo como o de um viciado, meus pensamentos enlouquecedores que me adoecem, tudo dentro de uma cabeça tão pesada que dói. Eu fico apavorada quando estou sozinha porque ninguém é mais aterrorizante do que eu mesma. Sinto saudade de momentos que existiram apenas dentro dos meus desejos, me apaixono pela ideia que crio das pessoas, as repugno pelo mesmo motivo. Choro horas por qualquer coisa que não faça sentido algum, fico estática em funerais, meu mundo individual é muito mais dramático do que aquilo que se vive por aqui. E essa é a hora em que eu penso, pra porra com todos esses bukowskys, kerouacs, fantes que querem enlouquecer a gente... Hemingway. Pra porra com Hemingway, a culpa é todinha dele. Ernie, esse grande filho da puta que começou a por na cabeça de todos os outros escritores beberões metidos a besta que é muito raro uma pessoa ser feliz e inteligente ao mesmo tempo. Por sua vez seus discípulos moderninhos aplicaram em toda sociedade classe-média-pseudo-intelectual-de-merda que é lírico, quase bonito, se embebedar e chorar em quartos de hotéis baratos. É tão bonito se infeliz que sente-se uma pontinha de alegria. Porém tudo o que se deve fazer diariamente é perseguir uma felicidade que você sabe que nunca vai alcançar. Esse foi o tiro de Hem que acertou todos nós, o tiro que ele já tinha levado de seus inspiradores e da vida antes mesmo de apertar o gatilho. Pra porra todos eles! Eles piraram a gente. Eu quero tanto ser feliz que fico paralisada dai penso que vou mandar toda essa merda pra puta que pariu e ir rebolar o popozão em cima de caminhonetes ''tunadas'', alienada e feliz, vulgar mas totalmente plena... ai eu sinto um misto de raiva vergonha nojo de mim mesma por permitir pensamentos assim.
Olho o relógio, meu livrinho do tio velho e safado continua piscando pra mim com as letrinhas vermelhas em caixa alta no verso ''O beat pós-moderno'', ah meu caro Hank se tu ainda estivesse vivo provavelmente estaria muito bebado e puto com toda essa merda.


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