segunda-feira, 26 de novembro de 2012

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A palavra dela

Há dias ele vivia em agonia. Simplesmente não conseguia relaxar. Oito de janeiro, exame de sangue. A enfermeira jovem com uma verruga estranha no queixo mandou ele se deitar. _O senhor tem que relaxar. – Ela disse _Talvez a senhorita tenha um pouco de cerveja. _Não, o senhor tem que ficar tranqüilo, põe as pernas aqui ó. – Ela apalpava uma maca branca lhe mostrando onde ele tinha que colocar as pernas. A verdade é que ele não estava nervoso, não mais do que sempre esteve. Logo após o exame, ele seguiu para casa com um pouco de dor de cabeça. Tirou os sapatos, deitou em sua cama e abriu um livro. Uma leitura menos relevante do que ele supunha, ficou lendo enquanto ouvia o telefone tocar na sala. Trocava de posição a cada página, a agonia se disfarçava, mas simplesmente, não ia embora. Copo d’água e leitura. Esquecer, copo d’água, livro. Cansaço, esquecer, copo d’água, mais palavras e menos significado. Lá pelas tantas, quase hora do almoço, ele virou mais uma página prestes de a engolir, cabeça adentro, coração vazio. Deparou-se com uma palavra. A palavra dela, ela habitava ali. E diferente dos outros dias em que conseguia disfarçar de si mesmo a dor que sentia, precisou dela mais do que em dais chuvosos. Mais do que telescópios precisam da lua. Grifou a palavra. Tentou apagar, mas a caneta era como as marcas que ela deixara. Aquele conjunto de letras que desarmara as defesas de uma longa semana em stand by. O “cê” e todos os “ás” daquela alavra que era muito mais ela e nada dele, nada deles, e se ele pudesse apagá-la da história ela talvez ainda estivesse ali. Passou um café, encarou as olheiras no espelhinho laranja do banheiro. Arrumou as gavetas, lavou os panos de prato, areou as panelas que foram de sua avó. Qualquer coisa pra passar o tempo, qualquer coisa pra disfarçar a responsabilidade de estar vivo. Volta e meia pensava nela, que já não era um ser e sim uma palavra. E pensava nos dias que passaram juntos como contos em livros infantis. Pensava no que nunca aconteceu e não vai mais acontecer. Lembrava dos conselhos dos poucos amigos que ainda tinha e alguma frase sobre não deixar a felicidade depender de algo que possa ir embora. Decidiu aceitar que talvez ela nunca o amou, apenas preencheu aquela lacuna da carência. Se deitou e dormiu. Quanto a palavra, me perdoe amigo, mas não posso me lembrar agora.


domingo, 25 de novembro de 2012

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Ninguém chora assim

Quando a gente se encontrou eu estava vivendo muito bem. Não tinha grandes guerras e nem grandes festas na minha vida. Eu já havia me acomodado na solidão e então você me veio com seu futuro redentor e a promessa de amor que dura pra sempre. Mas ninguém pensa no que é pra sempre antes de fazer uma promessa. O tempo, tão famoso tempo, foi passando e eu te conhecendo tão bem quanto um segredo revelado. Nada é tão bonito que dure para sempre. Você se mostrou e eu gostei, eu me mostrei e você fingiu que gostou, até que... Até que, você sabe, eu era um fardo pesado demais pra você carregar e cansei de te ouvir reclamar do peso. Então hoje eu fico aqui tentando voltar para minha vida meio termo, porque a palavra medíocre me parece muito cruel. Vou me protegendo do demais, não ficar louca demais, deprimida demais, bêbada demais. Pra sofrer de um tanto seguro e não me ver no fundo demais deste poço. Mas a verdade é que já estou cansada, ninguém sabe que já não durmo a noite. Já não sorrio por dentro. Nenhuma musica é minha. Mastigo os dedos e bebo o sangue. Está tudo bem, está tudo bem, repito e você me diz pra calar a boca, e que odeia quando eu fico repetindo isso. E menos pra te convencer e mais por mim repito, está tudo bem. Choro, porque o fim, f-i-m são três letrinhas tão incertas que te fazem olhar pra imensidão do desconhecido e se questionar porque tudo começa. Começa porque o ser humano se apressa em sentir, e se já que sente se apressa em sofrer e o sofrimento te engana e te faz pensar ser único. Ninguém tem uma dor como a minha, vou escreve uma canção, vou escrever um livro. Ninguém chora assim.