quarta-feira, 31 de julho de 2013
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Como brasa viva
Eva foi a mulher que mais amei em todos meus anos de vida. Consequentemente não foi com ela com quem me casei e não divido com ela a conforto morno de uma vida a dois. Aliás, de morna Eva não tinha nada e se estivesse deitada ao meu lado nesse momento incendiaria o colchão. As vezes, quando estou só em casa e acendo um cigarro na varanda ainda consigo vê-la nas escadas, trajando apenas uma camiseta branca e calcinha vermelha com um exemplar de Great Gatsby nas mãos e os seios rijos acompanhado o movimento do corpo ao descer os degraus. O que Eva mais gostava de fazer era ler, e em segundo lugar sexo. Ela se confundia entre seus prazeres e era fácil imaginá-la numa vida de orgia com todos os seus autores favoritos tendo orgasmos literários. Uma noite com Fitzgerald entre os lençóis do Ritz, transando com Kerouac no banco traseiro de um Hudson roubado, chupando Hemingway entre um gole e outro de vinho, cavalgando em Bukowski num hotel barato de L.A.. Eva tinha um jeito levemente estabanado mas muito languido que fazia você se apaixonar por ela quando ela bem entendesse. Quando ela estava ao meu lado todos os dias eram verões intermináveis e ela aquecia os dias mais frios e garoava sob o sol escaldante. Tudo nela se tornava um grande delírio porém com poucos, ou talvez nenhum mistério. Gostava das coisas como eram e deixava seus sentimentos transparecerem, detestava indireta mas era, na maioria das vezes, confusa.
Um dia ela me abandonou. Assim. Simplesmente. Se levantou do quarto pela manha, juntou suas coisas, e deixou sob o criado mudo um papel:
"Te amo mas tenho que ir embora. Preciso me encontrar e te deixar ser. Aqui não é o meu lugar, mas sempre vou me lembrar de você. De sua Eva.". Após meses de bebedeira minha esperança de vê-lá voltar ou ter uma mínima noticia de seu paradeiro se esvaiu. Se podássemos comparar as pessoas com animais Eva era uma águia livre e eu um perseverante jabuti. Me refiz, me situei, e aprendi a viver com a falta dela. Alguns anos depois conheci a mulher que seria minha esposa e passaria por tudo comigo, uma moça serena e doce que poderia muito bem se chamar "Ave" e não passava de um mero colibri. Um belo dia recebo em meu emprego um cartão postal de algum lugar da América do Sul "Sinto sua falta nas noites de setembro. Eva." Essas coisas eram a cara da Eva, e onde ela estivesse sabia que eu sentia sua falta também. Mas não a amava mais. Sorte a nossa.
quinta-feira, 11 de julho de 2013
13 julho de 1999
Marcelo,
Aqui estou eu, com caneta e papel em mãos, para escrever essa carta que provavelmente nunca chegará até você. No auge da minha covardia eu vou guardá-la no fundo da última gaveta do criado mudo e daqui há alguns anos, vou encontrá-la em meio a roupas que não me servem mais porém tenho um carinho especial. Depois de reconhecer o envelope e do que se trata vou fixar meus olhos no papel levemente amassado e tentar focalizar seu rosto em meio as minhas memórias gastas. Estou escrevendo mais para meu futuro "eu" que será capaz de perder o fôlego rindo desta situação, porém, hoje, é sobre você.
Nos dois sabemos que te subestimei. Me julguei tão superior que esqueci de averiguar as rachaduras em minha fundação. Então, de repente, assim como água que inunda, você se infiltrou em cada fresta, tomou espaço e agora o que que eu faço? Nós dois sabemos que subestimei minha capacidade de gostar de alguém. E me achando uma super mulher com o coração de aço permiti que você se aproximasse acreditando que minha armadura fosse mais forte que a sua doçura. Pobre de mim, com uma fraqueza tão ínfima quanto a carência. Fui golpeada, primeiro com um beijo, depois com toda sua tormenta.
Os dias com você tem sido aquilo ao que me apeguei. Mas cada hora a menos é um lembrete de que em breve você vai me deixar sem nenhuma intenção de volta. Nada disso foi planejado, alias, havia sim um plano que saiu todo pela culatra. Fiz uma série de concessões que mudaram seu lugar de importância em poucas semanas. Sim Marcelo, quando você me perguntou se eu estava gostando de você e eu neguei, eu estava falando a verdade! Mas a verdade se modifica, e de repente o "não vou te beijar" se tornou "só mais um beijo e nada de sexo" que ligeiramente passou a ser "só mais uma vez mas você não dorme aqui" para finalmente eu te prender entre minhas pernas para não te deixar ir.
Você vai embora e eu vou sentir sua falta por um tempo. Eu me remexo na areia movediça e isso só faz com que eu afunde mais rápido. Mas ainda tenho fé em mim e já me reergui de sentimentos muito maiores do que uma carência suprida. E quando eu te ver de novo você vai voltar a ser "só mais um menino". Por um tempo vou ter que me espremer entre os lençóis pra conter o ciúmes que eu sinto da sua vida sem mim. Até que aquela queimação no estômago seja apagada pelas águas da aceitação. Só que eu tenho que confessar que eu não quero ir a lugar algum enquanto você estiver por perto. Eu tenho que correr contra a sua direção mas minhas pernas me traem, minha maturidade se esvai e então volto a ser uma garotinha. Só me sinto viva com você, mas minha ressurreição é certa Marcelo.
Quando seus planos se concretizarem, todos aqueles que você me confidenciou mas dos quais não participarei, espero poder observar mesmo que de longe e ficar feliz por você. Feliz por todos os seus amores. Feliz pelo o que você aprendeu. E feliz por um dia ter te conhecido. E por fim, espero que você se lembre de mim em nossas coisas favoritas. Espero que você cultive essa parte minha que vai embora com você, todo meu entusiasmo e intensidade. Espero ter feito alguma diferença na sua vida.
Ps: vou sentir sua falta
Ps 2: seus pés estão gelados agora, e você está tão cansado que nem se mexe enquanto afago seu cabelo, você é a coisa mais linda enquanto dorme.
Da sua, Eva
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