Apesar de soar estranho era uma quarta meio nublada de setembro. Acordou com um telefonema da sogra, já eram oito horas, horário marcado para a última prova do vestido. A última vez que o vestiria antes do grande dia. Na pressa colocou a primeira roupa que viu na frente, escovou os dentes rapidamente e calçou os chinelos que estavam perto da porta. Elas se encontrariam na frente da loja e ela sabia que a mãe de seu futuro esposo não era muito tolerante com atrasos, assim criara os três filhos incluindo aquele que se casaria com ela em poucos dias. Um rapaz bom, formado, trabalhador, de família abastada, justamente o sonho de toda garota de classe média, o par perfeito, tão clichê quanto rosa para moças e azul para rapazes. Todos os dias sua avó fazia questão de frisar a sorte que ela tinha de encontrar um relacionamento tão sereno e garantido no mundo de hoje, esses eram justamente os pensamentos que ela procurava evitar.
Parando em frente à loja, avistou a sogra já dentro do estabelecimento esboçando um sorriso irônico de contrariedade enquanto olhava acusadora para o relógio. Era um dia muito tranquilo para qualquer questionamento então decidiu relevar e cumprimentar com um abraço. A vendedora, já com o vestido em mãos a instruiu para entrar no provador e se despir para a prova final. O vestido dos sonhos, meses de escolha e esse parecia o detalhe mais importante do grandioso casamento. A família do namorado não queria que ela alugasse um vestido qualquer, mas comprasse aquele que ela vira em seus sonhos de menina. Depois de tanto pensar optou por um modelo com saia muito volumosa de tule branco, corpo tomara que caia de cetim, e uma grinalda com pequenas flores salmão que contrastavam com seus cabelos e a fazia parecer mais com uma princesa da Disney do que uma simples noiva.
Já com o vestido a vendedora ajustava o corpete e lhe dava dicas de como fazer seus seios parecerem maiores. Saiu do provador, a luz em frente ao espelho da sala de provas mais parecia um holofote. Todos se viraram para olhar, alguns exclamavam que ela era a mais bela noiva já vista. Sua sogra numa voz muito fina e estridente soltou um “Você está maravilhosa” seguida de uma palma de admiração. Aquilo fez seus tímpanos sangrarem. Ela calçava os chinelos baixos que faziam a barra arrastar de leve no chão, a vendedora perguntou o numero que calçava e foi em busca de saltos para simular o dia do casamento a deixando com a sogra que falava ininterruptamente de como seu filho iria se emocionar e muitas outras coisas que ela mal ouvia, mas aumentavam um desespero crescente.
De repente tudo se apagou. Em sua mente era apenas ela, o vestido, o espelho e o holofote. Seu coração agora batia como uma orquestra sinfônica e sua respiração era como um trompete desafinado. Antes que a vendedora voltasse apanhou sua bolsa e mirou a porta de saída. Numa espécie de soluço abafado murmuro uma desculpa e saiu correndo em direção ao carro tentando alcançar as chaves dentro da bolsa. Lá fora uma leve garoa começava e já dentro do carro tentava discar um numero no celular com as mãos tremendo numa velocidade que invalidava sua coordenação motora. De que adiantava apagar o numero que se tem de cor? Do que adianta os anos se passarem, conhecer pessoas novas, viajar o mundo em mil tentativas mal sucedidas de esquecimento se o que a unia àquele outro homem era muito mais intangível que era impossível de destruir. Finalmente a voz do outro lado respondeu.
_Alô.
_Onde você está?
_No bar do Elso porque?
Acelerou o carro, seus pensamentos não se organizavam muito bem, porém ela sabia... Há certas coisas que as palavras não explicam, e o silêncio muito menos. É tudo aquilo que você engasgou e não disse, que te disseram e você concordou sem querer, que te ensinaram e você fingiu que aprendeu. Aquilo que passou da hora, mas não morreu. Já na rua de cima do bar o movimento de carros não permitia maior aproximação. Estacionou como pode, saiu do carro e correu, correu, correu. Uma mão segurava o vestido e outra a grinalda com o véu esvoaçante em sua cabeça, quem passava por lá não conseguia ignorar, tão clichê quanto boneca para meninas e carrinhos para meninos. A garoa engrossava, a lama fazia os chinelos escorregarem e sua barriga doía. Quem chegou ao bar não era a magnífica noiva do bom moço mas a noiva que ela queria ser. Numa mesa no canto um vagabundo com pose de bad boy a encarava.
_Me vê um copo por favor.
Se a cerveja está gelada e o amor é quente, que assim seja.