Eu roubo um trago e continuo a observando. Algo em mim procura pela adolescente mágica perdida na cidade grande em seu primeiro dia de universidade. Astrologia, Europa, mixtapes, Sartre, grunge, culinária japonesa, êxtase, ácido, budismo, cerveja quente, Bob Dylan, Godard, maconha, literatura norte-americana e expectativas. Agora tudo morto e bem enterrado. O curso terminou e ela nunca se estabeleceu, talvez por querer demais, e tudo ao mesmo tempo. Voltou pra casa da vó que ainda age como se ela nunca tivesse crescido e nada é o bastante para tirá-la desse circo de horrores. Seu modo de vida samsárico feito de sonhos e medo. É isso que eu escuto toda vez que ela faz de minha casa seu consultório psiquiátrico e suíte de motel.
Cada ano me torno mais imune a suas lamúrias de veraneio. Na verdade, acho que eu nem a escuto mais. Mas adoro o que vejo, ela é sexy e triste, os mamilos rijos porque está começando a esfriar. O sexo desesperado, gritos, suor, lençóis e roupas espalhadas, reflexo de sua urgência por ser salva. Salva de que? Salva de quem? Obviamente de si mesma. Enquanto penteia os cabelos sua fala se torna mais selvagem, e eu me certifico de que não a amo mais, e que hoje ela não passa da imagem anual em minha cama. E como uma criança que se desilude em esperar pelo papai Noel, todo ano sua volta inspira cada vez menos entusiasmo. Mas não se engane, o furacão sempre deixa marcas mesmo que cada vez mas tênues. Apesar de tudo, ainda levo dias para tirar os fios loiros da minha escova.
