Acredito que todo mundo tenha algo que guarda só pra si, algo do mais obscuro da alma que não dá pra dividir com mais ninguém. Ou talvez você prefira guardar das pessoas que você ama pra não machucá-las ou causar dano. Eu, como não sou diferente do mundo, tenho meu segredo, mas hoje vou dividi-lo aqui: Eu sou uma velha safada.
Na verdade eu sempre fui uma pessoa safada mesmo. Quando meu marido era vivo vivíamos pelos cantos engalfinhados e meus filhos cansaram de pegar o pai e a mãe no flagra. Amorzinho gostoso é pra quem não sabe trepar. Eu era moderninha desde antes do termo existir porque meu corpo pedia então que culpa tinha eu? Sempre gostei duma coisinha diferente, um tapinha aqui, uma dedada ali... coisa que se fosse hoje seria chamado de liberação sexual, mas que só se aplica pra gente nova.
Não sei exatamente em que ponto da minha vida eu deixei de ser a mulher moderna e independente pra me tornar a personificação da vó Benta, mas algo em mim não aceitou a ideia de que a partir dali eu só servia pra fazer bolo e contar história. Cada vez mais eu ouvia meus filhos dizerem “Mãe, a senhora nem tem mais idade pra isso.” É como se quando seu cabelo começasse a embranquecer eles te entregassem a cartilha de normas e condutas da velhice: viadagem, tatuagem e putaria não pode mais.
Aos poucos, por pura convenção social e pra não incomodar minha família fui me moldando num perfil de boa vovó, meus netos chegam e sempre tem pão de queijo quentinho. Só que por dentro eu não me conformava e o fogo só aumentava E numa noite de muitos pensamentos lascivos resolvi pesquisar na tal da internet e achei meu primeiro garoto de programa. No começo era estranho, mas de alguma forma a rotatividade de meninos e toda aquela vivacidade só estimulavam meu tesão. Fiz muita baixaria, porque é assim que eu sempre gostei.
Com o tempo fui me aprimorando em todo tipo de perversão, fiz até minha própria coleção de brinquedinhos, pobre de quem vasculhar meus baús quando eu morrer. Tem pinto de plástico, roupa de látex e uns chicotinhos, você pede na internet e eles entregam direto pra você. Mas decidi que fazer tudo isso na minha casa, em algum momento, levantaria suspeitas dos vizinhos e poderia expor meu segredinho. Foi ai que passei a frequentar hotéis, com o dinheiro da minha aposentadoria de quem trabalhou toda vida pra custear seus prazeres. Todo domingo, depois do almoço, espero minha família ir embora e fujo pro meu hotel onde um meninão já me espera. Às vezes, quando já não estou me aguentando de desejo expulso todos de casa com o pretexto de que vou à igreja rezar. Fazer o que? Igreja é a válvula de escape do velho.
Sabe, é muito doloroso pensar que partir de uma certa quantidade de rugas a sociedade passe a negar seu desejo sexual que, assim como você, ainda não morreu. Dizem que a idade está na cabeça da gente mas eu discordo, tá nos olhos de quem vê. É mais cômodo olhar minha expressão afetada pela idade e pensar em biscoito embora eu veja uma biscate. Só que hoje em dia eu já não me culpo nem me revolto, sei que minha vingança vai chegar. Se por sorte (ou a falta dela) todo mundo chegar na velhice e não poder mais foder vai ser ai que eu vou querer estar em algum lugar só observando e morrendo de rir.

